sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

É Natal!

O Natal é das crianças...De que crianças? De quantas crianças?Com fome não há Natal.
E são tantas as crianças vítimas da ganância...Até mesmo o encanto do Natal, vai
desaparecendo das suas cabecitas. Não é mais a vinda do menino Jesus, que deixava
as prendas,no sapatinho, no canto da lareira. Que saudades tenho do tempo em que
ingenuamente levava a olhar receosa, de que o menino se queimace, ao descer pela
chaminé, para deixar as prendas.Sempre aparecia um chocolate,umas peugas,sei lá que
mais.Mas o sonho ficava lá. Hoje fala-se do Pai Natal, das compras, da fome,dos
milhões,São coisas da crise. por razões da mesma, nem do Menino Jesus se fala no
Natal.


M. Mendes.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Ecos do Alentejo.

Ouvem-se ao longe e surdamente,
os chocalhos dum rebanho.
Aqui mais perto o coaxar das rãs.
Na minha pele sinto
uma brisa muito fina,
e a meus pés tenho um regato,
onde corre àgua cristalina.

Máis além está uma roseira,
numa das rosas
pousou uma borboleta,
suavemente, com doçura.
E eu meio embriagada
quero esquecer
que há fome,guerra...
É esta uma das formas,
de esquecer minha loucura.

M.Mendes

domingo, 5 de dezembro de 2010

MARIA POVO. ( A minha mãe )

Maria és uma tonta,
dizes que és analfabeta,
sabes tanta coisa linda
e nunca podes estar quieta.

Não sabes ler nem escrever
dizes com voz dolorida,
tu estás sempre a aprender
no grande livro da vida.

Tens uma expriêcia dura,
não digo nada de novo,
sentes orgulho e bravura
por teres nascido do povo.

Não te sintas infeliz
nem tão pouco ignorante,
és formada em amor
que nos dás em cada instante.

Para acabares com a fome
e a justiça ser maior,
os campos do Alentejo
regaste com o teu suor!

Justiça que ainda não viste,
mas não vás desanimar,
os filhos que tu pariste
continuam a lutar!


A Maria já partiu... Dedico assim a todas as ( MARIAS POVO!)


M Mendes

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A injustiça...

Meu amigo, estás velhinho,
trabalhas-te até poder
e hoje vives sózinho,
com tão pouco para viver.

Dormes num canto da rua
numa caixa de cartão,
a companheira é a lua
com quem passas o serão.

Se não vem a companheira
fica-te apenas o escuro,
resta-te numa algibeira
um naco de pão já duro.

Tens que ser forte e valente
não podes desanimar,
porque se ficares doente,
não tens meios p'ra te cuidar.

Sofro por ver-te sofrer,
não queria que fosse pior,
não sei o que hei-de fazer
para o mundo ser melhor.


M. Mendes.

domingo, 28 de novembro de 2010

A liberdade do pintassilgo

Na quinta do tio Zé, tudo corria como era normal. O sol tinha nascido contente soltando os seus raios, ia assim aquecendo todo o ambiente. Na horta as plantas cresciam tenras e fresquinhas, para serem cozinhadas. No tanque ouvia-se o quá quá dos patos. Os camponeses num vai vem tratavam cada um da sua faina.
Só Mariazinha, a neta do dono da quinta,não tinha acordado feliz. Metida no seu pijama de bolinhas, falava com um pequeno pintassilgo, que um dos trabalhadores da quinta lhe tinha oferecido dias antes e que ela metera numa gaiola que encontrara numa velha arrecadação, onde eram guardadas todas as tardes as ferramentas da faina campesina.- Não estejas triste,-dizia ela ao pintassilgo-Tens comida, àgua, a minha amizade, porque não cantas?-Não tenho liberdade nem alegria para cantar,-respondeu o passarinho.-Nunca reparaste que tenho duas asas? São para voar, voar bem alto.Como posso estar alegre e cantar, se mal tenho espaço para me mexer?
Mariazinha escutou e ficou a pensar,o seu amigo tinha razão.Pegou na pequena gaiola, levou-a junto da janela do seu quarto e soltou o pequeno pintassilgo, que pousou numa àrvore que havia em frente da casa e cantou, cantou, como que agradecendo a Mariazinha. Agora tudo estava no seu lugar. A menina todas as manhãs mal acorda vem pôr-se à janela, onde ouve o canto das aves e vê o seu amigo,saltitando de árvore para árvore, gozando a sua liberdade! Ao fundo do corredor ouve-se a voz da avó que chama. -Mariazinha, vem filha, são horas de ires para a escola. - E lá vai ela feliz pelo dever cumprido...

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O Canto do Rouxinol e a Roseira descontente.

O Rouxinol passava os dias a cantar. Saltitando duma àrvore para outra, dava gosto ver. Numa manhã foi pousar numa roseira que havia ali perto. O dia estava lindo, o sol mandava os seus raiosinhos para aquecer o mundo,o vento soprava muito mansinho e no ar sentia-se o perfume das cerejeiras e das rosas que também moravam ali no vale.
O rouxinol cantava... piu, piu ripipiu mostrando assim a sua alegria. Quem não estava muito contente era a roseira, onde o rouxinol tinha pousado,que assim dizia:
-Que barulho, passas os dias a cantar, não te cansas?
-Como hei-de cansar-me se estou contente.-respondeu o rouxinol.- Não vejo razão para esse contentamento.- disse a roseira.As pessoas não se entendem,- Já viste o rio que corre à minha beira como está triste? Poluiram as suas àguas. São os homens que o põem assim, a poluição é uma coisa muito má para todos nós.
-Sim tens alguma razão, nem tudo está bem. Mas se não estivermos contentes ainda é pior! Vê, repara nas tuas rosas como são lindas! São amarelas e que bem cheiram.As cerejeiras carregadas de bolinhas vermelhas, o calor que nos dá o nosso amigo sol... - Vou passar a estar contente,- respondeu a roseira,-Se o nosso amigo homem reparar em nós e na tristeza do rio, vai concerteza ter cuidado e também ele vai ficar mais contente.
O rouxinol voando muito alto, dizia:- Adeus amiga roseira, vou levar a minha alegria para outros lados. Fica e enche os campos com o teu perfume,se todos estivermos juntos o mundo vai ficar mais contente.

M.Mendes.

domingo, 31 de outubro de 2010

O Espantalho Sonhador

Era uma vez um pardal e um espantalho que assim dialogavam:
-Olá Espantalho!-chamou o pardal.
- Quem me chama?- Respondeu o Espantalho.
- Sou eu, o pardal da macieira.
- Aquele de quem devo ser inimigo?
- Inimigo porquê? Eu nunca te fiz mal.
- Sim, mas são as ordens que recebo do meu dono. Espantar-te para bem longe.
É por isso que me chamo Espantalho!
-O que para aí vai,tudo isso porque de vez enquando eu lhe como uma espiga, ou debico uma couve. Mas se eu não comer não cresço, fico sem força para cantar, voar.
-Disses-te cantar? Como eu gosto de te ouvir, a ti e aos teus irmão.
E como isso me faz bem.
-Estou sempre triste, sou feio, ninguém gosta de mim.
-Alto lá! Eu quero ser teu amigo, dou-te assim o que tenho para dar, as minhas melodias.
- Sim tens razão,são os sons o que me tráz algum alento. Do lado do vale também oiço dia e noite uma música que me encanta. Mas como nunca daqui saí... Não sei...
-Sei eu! É a voz dum pequeno regato onde corre àgua muito limpa. É lá que eu vou beber todos os dias,sempre que tenho sede.Ele é meu amigo,não se importa que beba.
-Como eu gostava de o conhecer-disse o Espantalho.
- Espera um pouco, eu volto já-disse entusiasmado o passarito, ao mesmo tempo que voava- voltando não só ele, como um bando de outros passaritos iguais a si, que assim chamavam:
-Espantalho! Espantalho!
-Que creis de mim?
-Levar-te a ver o regato e outros campos verdinhos como este.
-Mas como fazeis isso?- perguntou o Espantalho.
-Juntos e amigos, somos mais fortes. Eu fui buscar os meus irmãos e assim preso nos nossos bicos podemos fazer-te feliz.
Assim partiram pelos campos fora ao som da voz do Espantalho, que alegre dizia...
- Que lindo, que lindo é o mundo. Meus amigos obrigado, obrigado...


M.Mendes.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Conto Infantil : O Ratinho Vermelho

Era uma vez um ratinho vermelho,uma Caixa de Música, e um Pierrot que se encontraram.
A caixa não sabendo expressar-se doutra maneira, perguntou ao Pierrot em acordes músicais:
- Estás triste?- O Pierrot respondeu:
-Estou a sonhar!- A sonhar? mas tu estás acordado.
-Sabes é que eu sou mesmo assim,esqueço tudo que é mau e ponho-me para aqui a sonhar com enormes campos todos em flôr, com o luar, o sorriso duma criança e quantas coisas mais...
-Esqueces-te a música!Há lá coisa mais sonhadora que uma bonita melodia?
-Tens razão.-Respondeu o Pierrot: vamos ficar senpre juntos, queres? Eu com o meu sonho e tu com a tua música...
O Ratinho Vermelho que até ali estivera escondido, resolveu aparecer dizendo:
-Quem não cai nessa sou eu. Se não estivesse atento, a esta hora já estaria na barriga de algum gato. Também é preciso ter imaginação e esperteza. Se não oiçam:
-Eu não passava de um humilde Ratito desconfiado e medroso, pudera... Para qualquer lado que me virace,lá estavam a brilhar os olhos dos gatarrões ou muito discretas as senhoras ratoeiras para ver se eu caía. Então pensei: Tenho que pôr a funcionar a minha imaginação...Procurei, procurei e vejo num canto da arrecadação onde tinha pernoitado, uma lata de tinta vermelha. De um salto, mergulhei nela e como que por encanto ou magia, passei a ser ( O Ratinho Vermelho.) Agora são os gatos que fogem de mim, as crianças brincam comigo e já não fogem.
- Então que me dizem? Onde estaria eu se ficasse pelos cantos só a sonhar...
-Que linda a tua história, dizia a Caixa soltando suaves sons músicais.
-Ratinho Vermelho, também tu vais ficar junto a nós,-dizia o Pierrot. Assim teremos sonho,música e imaginação e o mundo irá mudar...




M. Mendes.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A Quinta do Pinheiro...

Já está distante no tempo, mas ainda muito perto na minha mente...
A Quinta do Pinheiro, Era um local lindo,onde passei algum tempo da minha infância.
Recordo-me que junto da fonte, donde corria permanentemene uma àgua muito fresca, havia por todo o lado roseiras de todas as cores. O perfume das suas rosas, era tão rico que não apetecia sair da sua beira... À entrada duma enorme vinha, onde as árvores de fruta também abundavam,passava eu grande parte do meu tempo,é que nesse mesmo local, estava situada uma grande coelheira e eu gostava imenso de ver as cabriolices dos coelhitos mais novos.Os meus pais assim como outros trabalhadores, iam tratar das vinhas, vindimar e até fazer o vinho. Lembro-me de ver o meu pai, tios e avô com as calças arregaçadas até ao joelho, pisando a uva donde ía saindo um líquido escuro...
Outra coisa que muito me alegrava, era quando a minha avó me incumbia de ir ao galinheiro fazer a recolha dos ovos. Missão que cumpria com muito cuidado não fosse haver gemada... Meus avós eram caseiros nessa mesma quinta onde quase toda a minha familia trabalhava o ano inteiro. Iamos para lá segundas de manhã e voltavamos ao sábado para casa que era em Avis. Na rádio havia então a Emissora Nacional, onde num programa para gente miúda era contado um conto todos os sábados à tarde, razão porque eu desejava que chegasse a hora de voltar e poder satisfazer a minha fantasia de criança! Ouvir um conto.Lá em casa não havia telefonia, razão porque mal chegava me enfiava na casa duma vizinha onde havia rádio, para quase sempre ouvir a locutora dizer:( Assim terminamos a nossa história queridos amiguinhos, até para a semana) Lá ficava eu toda amargurada,vendo assim desfeito o sonho duma semana inteira... Afinal não eram mais que sete ou oito ans de idade.
Se recordar é viver...


M. Mendes.

domingo, 17 de outubro de 2010

Arranjo de Provérbios...

Quanto mais fala mais erra +
depende do que se diga,
se falarmos contra à guerra
a fala não é perdida.


Ergue tua voz e canta
nesta constante labuta,
quem canta seu mal espanta +
e a cantar também se luta.


Quem não trabalha não come +
diz-se isto assim no rifão,
o trabalho me consome
e nem sempre tenho pão.



Escutas-te à minha porta
não é gesto que se louve,
isso a mim pouco me importa
quem escuta de si ouve. +


àgua mole em pedra dura +
segundo diz o ditádo
tanto dá até que fura +
ás vezes sem resultado.


Saudades quem as não tem +
do tempo em que foi criança
mesmo sem ser tudo bem
havia sempre uma esperança.


Esta vida são dois dias +
que bem mal passados são,
uns vivem de fantasias
e outros nem têm pão.


Luar de Janeiro é o primeiro +
a echer a terra de luz,
vem o de Agosto que lhe dá no rosto +
e à beira mar nos conduz.


Na casa onde não há pão +
é muito triste viver,
todos ralham ninguém tem razão +
passa-se a vida a sofrer.


M Mendes.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Recordando...

Ao longe ouvia-se o som dos machados que arrancavam dos sobreiros a cortiça, deixando-os mais leves. A tarde caía. Pequenas cabanas feitas de madeira e junco,substituiam as casas dos trabalhadores e de suas familias. No ar andava um cheirinho a comida que fazia crescer àgua na boca. Era um dos cozinhados de Laurinda. Desta vez, o jantar era peixelim, pimentos, e tomates fritos.( Pitéu este, muito apreciado pela familia.)
José carregava um braçado de lenha que iria pondo sobre uma grande fogueira e era à luz da mesma, que decorria a sessão de leitura. Findo o jantar, começavam a apróximar-se do local os trabalhadores.Quando todos estavam presentes, José chamava:
-Maria, vai buscar o livro filha...
Esta numa corrida entrava na cabana e saia trazendo na mão um pequeno livro,cujo título era. ( As Aventuras do Capitão Morgam)Depois do pai marcar as páginas que iriam ser lidas naquela noite, Maria começava sem sacrifício, e sem se apreceber que há sua volta, estavam um grupo de homens famintos culturalmente, pelo seu analfabetismo, ficando assim dependentes duma miúda em idade escolar.Durante a safra, repetia-se assim todas as noites... O Capitão Morgam era um personagem corajoso e valente... Não eram menos fortes os homens que ouviam a hitória. Eram sim vítimas, das desigualdades criadas, por outros homens seus semelhantes...



M Mendes.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O Sonho dentro de nós!

Só faltava liberdade
podermos erguer a voz,
ter por todos amizade,
o sonho dentro de nós.



Sonhamos a vida inteira
somos terra de poetas,
não atingimos as metas
vivemos doutra maneira,
suavizando a canseira
dessa palavra saudade
que faz sofrer de verdade,
recordando então o dia
em que tudo era magia
só faltava liberdade.

Cantamos com o coração
continuamos a sonhar,
mas não podemos parar,
queremos saber a razão
de tantas bocas sem pão.
O tempo passa veloz
deixando marcas em nós
que não podemos esquecer.
Dá-nos força p`ra viver
erguermos a nossa voz.

Cada um tem o seu fado
e força para cantar,
cantam uns a soluçar,
e outros num tom magoado,
também hà fado falado,
que se cante com vontade
para dizer a verdade.
Conquistando a alegria
de viver em cada dia,
ter por todos amizade.

Ouvi cantar um poeta
que cantava ao desafio
junto das àguas dum rio
com uma ave discreta,
deixei a janela aberta
p`ra melhor ouvir a voz,
Senti uma saudade atroz
e apeteceu-me dizer
que ainda podemos ter
o sonho dentro de nós.


M. Mendes

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Velha Gaiteira...

Era uma manhã fresca do mes de Setembro, lá fora, já se ouvia o bulício da vida campesina da aldeia.
- Bom dia,tio António, já lá vai para a lida, não é assim?
- Que remédio, rapaz...
Alice tinha acordado cedo,começou por abrir o roupeiro que tinha no quarto, para fazer alguma arrumação. Viu num dos cantos um velho vestido e ficou para ali a recordar... Era ainda uma jovem a última vez que o tinha vestido nos festejos da aldeia.Que saudades desse tempo... Já tinham passado tantos anos... Aflijia-a a ideia de envelhecer.Ficava assim sujeita aos piropos duma sociedade que teima em arrumar os velhos quando atingida uma certa idade. Sempre ali tinha vivido, conhecia bem os seus conterraneos, povo honesto e trabalhador.Entristecia-a porem,saber que muita daquela gente ainda sonhava mas de modo que ninguem se apercebesse, não fossem cair no ridiculo... Alice olhou para o espelho e viu que as rugas já eram muitas,os cabelos embranqueciam, mas não queria sentir-se arrumada.
Mergulhada nos seus pensamentos,ouviu na rua os acordes duma suave melodia e vozes de crianças. abriu a janela com curiosidade.Sob a mesma conversavam duas mulheres:
-Olha o Manel dos livros,agora depois de velho arranjou uma sanfona para tocar,dizia uma.
- Lá diz o ditado, depois de velho gaiteiro.- respondeu a outra com ironia.Um homem já entrado na idade,tocava um pequeno harmónio a alguns metros dali, Tinha à sua beira um cesto com livros meio envelhecidos, e estava rodeado de crianças que pareciam felizes. A curiosidade continuava a espicaçar Alice. Apróximou-se, comprou um livro e reparou que dos olhos do musico, emanava um resto de juventude, que o tempo não tinha destruído totalmente, a vontade que ele tinha de partilhar com os outros a sua boa desposição, dizendo sempre uma graça...
Alice movida pelo desejo de saber quem era aquele homem que nunca tinha visto por ali, meteu conversa, perguntando:
-O senhor está sempre assim bem humorado?
O homem meio enigmático,respondeu-Vendo sabedoria e alimento os espiritos com a minha música. Já reparou nos olhos destas crianças?
-Sim parecem felizes-respondeu Alice.
Manuel pôs ao ombro o harmónio, pegou no cesto dos livros e partiu de cabeça baixa... para outra esquina sempre seguido da miudagem.
Alice ficou impressionada. Aqueles olhos faziam-lhe lembrar alguém que há muito perdera... Foi para casa e voltou a abrir o roupeiro, desta vez para tirar uma velha caixa de sapatos, onde tinha guardadas recordações do seu tempo de menina. Tirou uma fotografia que contemplou... pela face correram-lhe algumas lágrimas. A foto era dum homem, o único que amara na vida e lhe tinha sido roubado por uma guerra injusta, como injustas são todas as guerrs. Partira um dia já distante no tempo, e nunca mais voltou...
Manuel,o homem da sanfona, ao anoitecer, voltou para casa situada a poucos metros da aldeia, onde vivia sozinho. também ele ficou intrigado, aquela voz...Não era possivel, tinham passado tantos anos!...Estava cansado, deitou-se cedo e procurou não pensar mais. O seu nome actual era Manuel assim era conhecido por toda aquela gente, Jorge, o seu verdadeiro nome há muito que tinha desaparecido...
Os dias foram passando. Manuel, todas as tardes passava e tocava naquela rua era como se quisesse alimentar uma uopia...Alice sentia-se estranha,não deixava de pensar nos olhos de Manuel, não fossem eles tão parecidos com os de Jorge,o seu grande amor, assim às primeiras notas musicais que ouvia, abria a janela e ficava para ali...A vizinhança começou a notar que algo estava diferente no seu comportamento e comentava:
- que se passa com Alice? Não gostaria de ter razões para dizer que alguma coisa mudou, foi sempre tão acertadinha- dizia Ana para o marido.
-Sim, também tenho reparado, não é a mesma...-respondeu este
Naquela tarde, Manuel ficou mais próximo da janela, tão próximo que Alice pôde ver uma pequena cruz que pendia no peito do musico,suspenso duma tira de cabedal. Alice
estremeceu era como se sonhasse.Indagou:
-Senhor, essa cruz deveria estar no peito dum homem chamado Jorge, diga-me como a obteve? Foi seu companheiro de guerra?... Estava ansiosa...
-Não é possivel...Alice... É uma longa história...respondeu Jorge.
Alice,tinha agora uma certeza: Aqueles olhos não a tinham enganado... Era Jorge quem estava ali.
Depois de alguns dias passados ficou a saber que Jorge oficialmente tinha morrido na guerra. Para ela o importante, era saber que o seu único amor tinha voltado...
Sentia agora vontade de vestir o seu velho vestido e deixou de ter receio de ser apelidada de velha gaiteira.


















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terça-feira, 21 de setembro de 2010

Perfume da Infãncia.

Oa bichos,os brinquedos,
os perfumes,os medos,
os lugares da infãncia,
os vizinhos, os pais,
são quadros à distãncia
que não se esquecem mais.

O baú no sobrado,
brincar no balancé,
um papão no telhado,
conversar na chaminé...

A voz da minha mãe,
copos a telintar
e logo atrás me vem
o cheiro do jantar,
a mesa da cozinha,
os bagos da romã,
uvas pretas da vinha,
perfume de maçã.

O testo, a pá, o tarro,
infusas no poial,
os pucaros de barro,
o potinho da cal.

O gato pachorrento,
as tontas das galinhas,
o tanque de cimento,
os ninhos de andorinhas.

A coberta de linho,
a revestir a mala,
a comoda de pinho,
o relógio da sala.

Serões à luz da lua,
os contos, adivinhas,
os barulhos da rua,
conversas de vizinhas.

Cada cena da vida da criança que fomos
é riqueza investida no adulto que somos.


Poema de Mariana Aguilar.

domingo, 19 de setembro de 2010

BIBLIOTECAS...

Bibliotecas,palavra mágica que tento descobrir...Como prova não podia ficar alheia, aos aniversários da Biblioteca em Silves, onde tenho amigos que me teem ajudado nessa descoberta.

23-4-2009 Dia do seu primeiro aniversário


Apenas com um aninho
já fez feliz multidões,
arrasta no seu caminho
pessoas p`los corações

Livros com vários destinos,
tem novelas de pasmar,
e para os mais pequeninos
lindos contos para contar.

Estantes, cores em todo o sítio,
livros, letras, coisa louca...
São necessários ao espírito
como o pão é para a boca

Poder ler é uma vitória
a que dou muito valor,
sabe bem ler uma história
ou um romance de amor.

Um amigo em cada canto
sempre pronto a atender,
vós sois todos um encanto
e eu vim para agradecer.

Em 23-4-2010

Mais um ano é passado,
tu cumpres tua missão
levando pró outro lado,
em que o saber é razão.

De parabéns estamos todos,
haja por isso alegria,
vais com teus livros a rodos
espalhando sabedoria.

É simples a minha oferta
trago apenas uma flor,
a minha verdade é esta
tenho por vós muito amor.

Esta é a forma que tenho de dizer o que sinto,
da sua Magia...


M Mendes

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

DIVAGANDO....

Sou uma vagabunda
que nada tem,
deitei numa canoa
os meus sentidos,
as minhas penas,
cansei-me de penar!
Por aí ficou o coração
e sonhos já vividos.
A canoa partiu
em direcção ao mar.
Com a maré vai e vem,
eu fiquei por cá a mendigar.



M Mendes.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

POEMA 3 DE SETEMBRO ( A meu filho)

Parabéns...
Como eu gostava de poder dizer-te frente a frente.
De olhar no olhar, num abráço.
Sem saber em que parte do Universo estás
levanto o pensamento e é assim que faço.
Parabéns... parabéns... parabéns...
Ao menos o eco, ó brisa suave leva tu contigo.
Fica tu mais forte e leva-lhe um beijo raio de sol amigo.
E tu passarinho que tens umas asas e podes voar
leva-lhe um recado e no bico uma flor,
diz-lhe que o meu pensamento, já está tão cansado!...
Leva-lhe então tu todo o meu amor.

M. Mendes

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

POR DETRÀS DA VIDRAÇA

Rompe o sol detrás do monte
das aves ouve-se a voz,
fica belo o horizonte
há mais calor entre nós.

Eu fico atrás da vidraça
duma pequena janela,
vejo tudo o que se passa
não posso passar sem ela.

Vejo passar à tardinha
de olhar distante e profundo,
uma mulher já velhinha
que vive só no seu mundo.

Vejo e oiço na gaiola
numa pequena viela,
um canário amargurado
por não ter uma janela

Na rua que fica em frente
há uma roseira encarnada,
que suavisa o ambiente
duma casa abandonada.

Escurece, fecho a janela,
já sinto a noite a chegar,
só vou voltar para ela
quando o sol despertar...

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

CAMINHANTE...

Onde vais caminhante?
começas a ficar cansado da caminhada...
os caminhos estão velhos e gastos.
e no bornal que tens? Está vazio, não tem nada.


Ó caminhante do bornal vazio,
não há só Outono também vem o Estio,
com ele vem o sol, o calor,
e até mesmo a esperança vai voltar...
enche o teu bornal,
porque a estrada é longa e tens que caminhar...
sim, enche-o de luta,de coragem,até de alegria.
Mas se for difícil, não o deixes oco,
põe-lhe dentro ao menos fantasia...

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

CONTEMOS HISTÒRIAS!...

Neste mundo em reboliço,anima-me a ideia, de que se fala ainda em histórias e contadores das mesmas.Pessoas que se empenham deste modo, a não deixar morrer o passado e falar das injustiças passadas e presentes,sem descuidar as coisas boas que a vida tem e que nem sempre damos por elas.

Era apenas um sonho...
O relógio despertador acabava de tocar. Era o princípio de mais um dia de labuta. Maria Clara levantou-se,e depois de cuidar da sua higiene, foi para a cozinha tratar dos pequenos almoços. Levantou a persiana, abriu as vidraças e ficou para ali... estava tudo tão sereno!... Só uma aragem muito suave se manifestava, agitando as rosas duma roseira que havia no jardim em frente de sua casa. Que bem se sentia!... Sobressaltou-se;porém,quando viu as horas,ainda tinha que cuidar de Terezinha sua
filha. Luis o marido, despachava-se à pressa,já não era cedo.
-Maria Clara, estão prontas? -perguntava.
-sim, mais ou menos-Respondia esta. E numa correria, lá seguiam.
Luis tinha uma pequena mercearia. Antes de abrir a porta deixava a filha e a esposa na escola, onde esta era professora. Terezinha estava no seu primeiro ano escolar, na sala ao lado daquela onde a mãe dava aulas.
Maria Clara mal entrou na sala, começou a encaminhar as coisas para a lição de leitura.- Tirai os vossos livros-disse. Ao som de um pequeno burburinho de fechos, os livros iam aparecendo sobre as carteiras. -Vamos começar!
Dizendo isto reparou que, ao fundo da sala, estava uma aluna triste e meio desajeitada. Maria Clara perguntou:- Então Rita porque esperas que não tiras o teu livro? Rita, chorando, respondeu:- Eu não tenho livro, senhora professora, os meus pais não podem comprá-lo. O meu pai está desempregado... A professora tentando remediar o embaraço da miúda chamou.-Vem cá- Pegou num livro que tinha sobre a secretária e disse-lhe: - Pronto, não te aflijas, fica com este que te ofereço eu. Rita chorava e ria ao mesmo tempo, dizendo.-Obrigada senhora professora...
Esta ficava para ali, comovida, pensando: Que mundo este em que vivemos: Guerras,injustiças,fome. Podia ser tudo tão diferente!...
Maria Clara era sensível e sofria com os problemas que os alunos traziam para as aulas: pais separados em conflito pela tutela dos filhos, crianças mal alimentadas por
falta de meios, pais desempregados ou com baixos salários. Sentia-se impotente. Que
poderia fazer mais, do que ensinar e tratar bem os seus alunos?
Findas as aulas, esperou pela filha e foram para casa. Luis só chegava à noite.Depois
de pronto o jantar, mãe e filha foram regar o jardim. Terezinha tinha a seu cargo algumas plantas,regava com um pequeno regador. A mãe tentava serenar as emoções do dia, cotemplando as suas flores que, indiferentes estavam cada dia mais lindas.
Anoiteceu. Sentados à mesa, Maria Clara reparou que o marido estava com um ar cansado
- Terezinha, dá um beijo ao pai e vamos para a cama -Estes abraçaram-se e meia hora depois, a pequena dormia a sono solto. - Luis hoje estás muito cansado?-perguntava a esposa. - Sim não foi fácil o dia. Hoje apareceu-me lá a tia Carlota muito angustiada, a pedir: -Luis, vende-me um pão e uma garrafa de azeite que mal chegue a minha reforma eu venho pagar. Deixei agora o resto do dinheiro que tinha, na farmácia
Pois sim, tia Carlota vá descansada. Mas se isto continua assim...não sei.
Maria Clara olhando o relógio disse: É muito tarde. Amanhã é outro dia de luta.
Havia música e alegria por todos os lados, no ar subiam balões de todas as cores.As crianças faziam jogos e cantavam alegremente. Os pais embevecidos,estavam felizes! Ao longo duma sala havia uma mesa, coberta de comida. A escola estava em festa...Tudo
tinha mudado... O despertador tocou, mais um dia ia começar... Maria Clara acordou meio estremunhada e ficou pensativa. Afinal não passava de um sonho...

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

NADA.

Nada,nada de nada,
de nadas eu enriqueci,
são meus os oásis do deserto
e foi no deserto que te conheci.
São minhas todas as plantas,
que à beira dos caminhos estão a despontar.
É meu o sol, é minha a chuva,
e eu sem nada ter para te dar.
Amiga solidão fica comigo...
e serão teus também,
todos os meus nadas.

DIVAGANDO...

Vestes-te de cores rúberas
como se fosses tarde radiosa do mês de Abril
e eu faço o teu jogo.
Recalco a verdade cá bem no fundo,
na ânsia febril de que fosses diferente
e diferente fosse também o meu mundo.
És cinzenta, cinzenta
como cinzentas são todas as tardes,
dum rigoroso inverno.
Eu aprisionada neste inferno,
faço o teu jogo solidão.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

QUADRAS SOLTAS.

AVIS em dimensão és pequena
muito grande no valor,
de estar longe tenho pena
para te dar só tenho amor.

Oiço os sons da alvorada
acordo pensando em ti,
minha terra abençoada
és a terra onde eu nasci.

Meu Alentejo fagueiro
cheio de encostas e montes,
ainda sinto o teu cheiro
oiço correr tuas fontes.

Das aves oiço o gorjeio,
dos rebanhos o chocalho,
e o povo no seu anseio
sai de casa p'ró trabalho

Assim ao romper do dia
a recordar o passado,
cresce a minha nostalgia
meu Alentejo adorado.

Quero-te fazer a promessa
ainda que eu esteja ausente,
a minha verdade é esta:
tu estarás sempre presente.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Para aqui estou a divagar...

Minha casa é pequenina
construida num cantinho,
repartua com uma andorinha
que no beiral fez seu ninho

De manhã quando desperto,
gosto de pôr-me à janela,
onde de biquito aberto
parece querer-me dizer
que a casa também é dela.

Fico para ali parada...
a ouvir o seu gorjeio,
duma nuvem meio rasgada
rompe o sol pelo meio,
que resplendor...
à janela do meu quarto,
repartimos o calor,
do sol que já vai alto.

Gosto de Música, Poesia, Teatro, Arte. Porque não fantasiar um pouco?

M. Mendes.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

AS MINHAS MENTIRAS

Era uma tarde fria e chuvosa do mes de Novembro. Eu não estava bem sentia-me cansada e com uma necessidade imensa de alguma coisa que me aliviasse o espírito. Sentei-me em frente do computador onde costumo consultar alguns blogues de pessoas amigas. Por aquilo que ia lendo podia ver que eram comuns os anseios por um mundo melhor e mais verdadeiro. Passou algum tempo, continuava a não me sentir bem. Desliguei o computador, aticei a minha memória e voltei atrás recordando assim a minha meninice que não foi fácil, mas vivida numa das Províncias mais lindas do nosso Pais: Alentejo é o seu nome! Por mais mentiras que se digam a seu respeito, há verdades que não podem ser ignoradas: a sua beleza por exemplo. É feito de casas muito brancas, nos campos o ar é puro e cheiroso a flores e plantas campestres, ao som de concertos musicais feitos pelas aves que indiferentes saltitam de árvore para árvore.
Recordei-me então de algo que, na minha inocência, me fazia feliz: Meus pais eram trabalhadores rurais, levando-me assim com eles para os campos onde trabalhavam. Era o tempo das ceifas. Para me defender do calor do verão compraram-me um chapéu de palha de várias cores: vermelho, amarelo, azul e outras mais. Assim quando o sol ficava alto, lançando para a terra os seus intensos raios, eu deitava-me no chão, punha sobre o rosto o meu chapéu de cores e os raios do sol, incidindo em cada uma delas transformavam a minha existência ao ver tão belo espectáculo.
Comecei muito nova a sentir-me atraída pelas coisas da arte e por tudo em que pudesse aprender... Reconhecendo isso, o tio Manuel, um velhinho muito pobre que por sinal era meu avô, dizia sempre que me via:
-Hás-de ir estudar, minha filha, o avô paga-te os estudos.
Que entusiasmada que eu ficava!... Na minha ingenuidade, nem me apercebia que isto me era dito, sempre que ele bebia uns copos. Talvez para esquecer que por mais que gostasse de cumprir a promessa, não tinha possibilidades para o fazer. Enquanto durava o efeito da mentira eu era feliz.
Não gostei muito quando apareceu lá em casa um bebé gordinho e anafado que eu não compreendia donde tinha vindo.
Surpresa e espicaçada pela curiosidade, lembro-me que perguntei a minha mãe,que com um ar muito ternurento me respondeu que o meu maninho tinha vindo numa caixa de sardinhas do senhor Francisco Figueiras que era o dono da peixaria da vila. Mais uma mentira! Mas desta vez eu não fiquei lá muito convencida. Por mais que cheirasse o cachopo, não me cheirava a sardinhas, mas sim a sabonete. Bem ou mal cheiroso, sei que, no dia seguinte, já estava apaixonada por ele e desinteressada do lugar donde tivesse vindo.
Quantas saudades tenho dessas mentiras! Apetecia-me voltar a ter o meu chapéu de palha e, com a mesma inocência voltar a ver o mundo das mesmas cores... Mas não, o tempo vai passando e, envoltos numa sociedade mentirosa que nos envolve com promessas enganosas, chegamos a enganar a nossa própria verdade para não quebrar a regra. A tarde já ia alta e a chuva tinha parado. Fui junto da janela e vi que por entre as nuvens o sol espreitava como querendo lembrar-me desta vez, que a última coisa que se perde é a esperança.

Manuela Mendes

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Página em branco.

Para aqui estou, em frente desta página em branco com as coisas em turbilhão dentro do peito, sem saber como deitá-las cá para fora. Olho para o papel e é como se fosse um grande muro,dificíl de saltar para o outro lado,onde muita coisa há para descobrir e a ansia de o saltar é cada vez maior,mas o papel continua por escrever. Gostava de falar de tantas coisas...Do nascer e por do sol,de pássaros de asas cortadas,do desabrochar duma rosa,da fome,do regato onde as águas cristalinas correm sem nada que as prenda, do sorriso sempre puro duma criança,eu sei lá que mais...
mas o papel coninua por escrever.

Manuela Mendes

sábado, 14 de agosto de 2010

A lareira

Aquele Inverno estava a ser demasiado violento. O vento e a chuva pareciam não mais ter fim e os campos iam ficando cada vez mais encharcados.


Os habitantes da vila começavam a ficar inquietos, se o tempo não mudasse o que iria ser deles e das suas famílias, se o seu trabalho era o arranjo das terras? Sem jorna, quanto tempo mais iriam sobreviver?...

Em casa de Aurora já nada tinham em que pôr olhos. Alguém bateu à porta, era a avó da miúda que viera visitá-los e trazer alguns matimentos.

Esta vivia numa vila perto. Aurora ficara louca de contente, para além de gostar muito da avó sabia que nesse dia as coisas iriam melhorar um pouco. Assim foi.

Antonia abrira um cesto de tampa que trazia e, como por encanto, começaram a sair do mesmo, pão,azeite, ovos,azeitonas, batatas, feijão e ainda algumas fatias de guleima que era o nome dum bolo que ela fizera lembrando-se dos netos.

Era como se o Inverno tivesse parado lá fora e o sol voltasse a nascer...

A mãe de Aurora colocara sobre o borralho, a trempe de ferro e sobre esta a tijela de fogo, onde foram caindo rodelas de batata e de cebola que depois de algum tempo de cozedura, se transformaram num delicioso banquete. Os olhos de Manuel, o irmão mais novo de Aurora brilhavam de contentes. A avó mal o cozinhado ficou pronto colocou num cantinho da lareira, sobre uma pequena mesa que tinham, um pequeno prato e chamou: - Manuel, vem cá filho, vem que a avó dá-te a comida. Acabada a refeição, a avó voltou para sua casa.

João o pai de Aurora, saira um pouco até à taberna onde era costume juntar-se com os seus companheiros de trabalho, Maria ficara sentada à lareira com os seus dois filhos, aproveitando para remendar alguma roupa do marido. Entretanto tinha anoitecido, era preciso acender a candeia e deitar o Manuel que já dormia.

Depois disto,continuou costurando, enquanto Aurora sonhava acordada, era como se não estivesse ali, de olhar fixo no brazido ouvindo o crepitar deste donde de vez em quando se soltavam pequenas labaredas. Maria pegava na tenaz e atiçava o borralho encostando ao mesmo, a chocolateira de zinco.

Aurora continuava absorta, diliciando-se com o bsss bsss que emanava da mesma, o vento soprava lá fora, entrando pelas frinchas da janela, fazendo tremer a luz da candeia, cuja sombra se refletia na parede formando fantasmagóricas figuras. E assim, aos poucos o sono foi tirando Aurora do seu enlevo.

Manuela Mendes